segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Colocando a carreira nos trilhos

Em minha última postagem, Arte e conscientização, comentei o ótimo longa Dallas Buyers Club (2013), de Jean-Marc Vallée. Volto ao filme, mas, desta vez, meu intuito é comentar a carreira de Matthew McConaughey.
Muitos devem conhecer o ator de suas comédias românticas que são esquecíveis. Todavia, nos últimos anos McConaughey tem posto seu potencial a serviço de obras mais marcantes. Como, por exemplo, o próprio longa do Vallée.
Minha primeira experiência com um filme do reencaminhado Matthew McConaughey foi Killer Joe (2012). Filme muito bom de William Friedkin acerca de uma família cujas peripécias causam ao telespectador uma vontade de tomar banho ao sair da sessão (assistam e entendam).
O trabalho do ator que mais me agradou, ironicamente, não foi um filme; mas uma série. True Detective tem como premissa a retomada das investigações acerca de um antigo homicídio. Os principais envolvidos nos acontecimentos passados são Rust Cohle (McConaughey) e Marty Hart (Woody Harrelson), dois detetives aposentados. O argumento, ambientação e direção da série são excelentes; de forma que a recomendo muito.

Protagonistas da série True Detective

Com dois bons filmes e uma ótima série citados, creio que já expressei minha admiração pelas atuações mais recentes de McConaughey. Além do mais, notar um caso positivo de reestruturação de carreira é sempre bom.

domingo, 21 de setembro de 2014

Arte e conscientização

Ontem assisti ao ótimo filme de Jean-Marc Vallée, Dallas Buyers Club (2013); ou, no Brasil, Clube de compra Dallas. A história discorre acerca de um eletricista que se vê como portador do vírus HIV e como ele, mesmo em toda sua ignorância e preconceitos, torna-se uma notável figura na busca da humanização dos que, como ele diz, estão casados com o mesmo vírus que ele.

Matthew McConaughey interpretando o protagonista do filme, Ron Woodroof. Sua atuação lhe garantiu a estatueta do Oscar por melhor ator.

Como não quero estragar a experiência cinematográfica de ninguém, não me estenderei a mais acerca do filme. O que me põe os dedos sobre o teclado, na verdade, é uma reflexão que me ficou ao fim do longa.

O provável é que a maioria dos leitores já teve, em seus tempos escolares, campanhas de conscientização acerca da AIDS. Palestrantes argumentavam como devíamos usar camisinha et cetera e tal. Fatos estes que eu já conhecia muito bem antes de a escola julgar que seus jovens estavam preparados para ouvirem sobre sexo. O ponto é: quão eficiente seria, quando comparada à estratégia comum das escolas, a exibição de um filme como o de Vallée a adolescentes que estão às portas (quando já não puseram um ou dois pés) da vida sexual?

O interessante é que não é a primeira vez que me questiono algo nessa linha. Quando assisti Requiem for a dream (2000), do Darren Aronofsky, também me questionei se este filme seria uma boa campanha antidrogas.

Antes que alguém chegue à incorreta conclusão de que proponho uma reforma educacional ou algo do tipo, não, esse não é meu intuito. Este texto, na verdade, é carente de propostas. Tenho plena noção de que os dois longas citados não são os mais leves possíveis, em muito sentidos. Em suma, o que importa é a reflexão; não somente acerca das políticas de conscientização das escolas, mas, também, a respeito da influência que a arte pode ter sobre os jovens.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

As pernas de Úrsula, de Claudia Tajes

Em busca de algo curto para ler, acabei me deparando com As pernas de Úrsula, da gaúcha Claudia Tajes. Com a promessa de uma visão bem humorada do cotidiano, me lancei a essa leitura de algumas horas.


A proposta de Tajes é a seguinte: o narrador, casado e com um filho de quatro meses, conta como se apaixonou pelas pernas de uma desconhecida. Por bem ou por mal, o que falta à escrita da autora é ambição. A leitura se sustenta, todavia, por meio de um humor ágil e constante; e não posso deixar de notar a escrita competente de Claudia Tajes.

O primeiro dos vinte e cinco capítulos do livro se centra na premissa citada. A partir do segundo se reconstrói o caminho que leva o narrador até aquele momento. Embora a trama se estenda por anos, não há momentos memoráveis. O protagonista se prova uma pessoa bem humorada e de uma ironia por vezes surpreendente. Contudo, não me apeguei muito a ele. Mesmo que a trama suscite em torno dele temas como: casamento, filhos, adultério, solidão, virilidade, desencanto, aborto etc., somente algum deles marcam o leitor.

Contudo, a obra se mostra boa por um rol de personagens secundárias que, por muitas vezes, me interessaram muito mais que o narrador; em especial as mulheres. Há uma mãe muito dona de sua sexualidade independente da velhice em curso; uma esposa desprezada que encontra no divórcio o florescimento pleno das relações amorosas; a mulher poderosa que estava a fim de uma transa e nada mais. Elas dão cor à narrativa, e até mesmo a esposa do narrador mostra, em uma construção que preza os detalhes, uma força um tanto quanto inesperada.

As pernas de Úrsula não é um livro que ambiciono reler, tão pouco é um livro que não gostei de ler. Cheguei a rir bastante em alguns trechos. O final guarda aquele tom de clímax, mesmo que o caminho trilhado até ali, que é de razoável consistência, não seja dos mais interessantes. Em questão de nota, três de cinco me parece justo. Em suma, recomendo como leitura despretensiosa; e não ficaria triste se reencontrasse a autora entre as leituras da vida.